Sonho

 

Quando criança eu imaginava que os adultos choravam por não terem com quem brincar e seria passageiro.

Às vezes tentava projetar a felicidade em pequenas coisas como meu boneco predileto, mesmo ele sendo um pedaço de madeira ele era mais forte que eu, sempre!

Lembro da bermuda azul e camiseta branca que usava ao ir para a escola. Lembro dos lápis de cores tão bonitos e únicos, a maioria dos meus desenhos eram quase brancos, pois eu tinha dó de gastar as cores.

Muitas pessoas viam algo em mim, algo especial e eu nunca entendi o porque. Sim, eu era muito estudioso, mesmo sendo forçado a isto.

Digamos que eu não tive infância, pois lembro de amigos mais velhos irem brincar enquanto eu me preocupava com o horário de ir trabalhar.

Eu prematuramente aprendi o porque os adultos choram e não é necessariamente por não terem com quem brincar e nem por causa de um boneco.

Aprendi desde pequeno a dar valor à dignidade, mesmo ela sendo algumas vezes descolorida ou maquilada, passei a acreditar nas pessoas principalmente naquelas que não acreditam em sí mesmos.

Não tive muitos amigos e também não brinquei muito, mas usei muito da imaginação e deliberadamente acho que ultrapassei a fantasia.

Passei a não acreditar em religiões depois de ler sobre elas é engraçado, pois li tanto sobre diversas culturas religiosas que por acabei me tornando muito imparcial ao ponto de duvidar se a existência realmente existe.

Quando criança eu imaginava um futuro mais verdadeiro, acreditava que os carros voariam e que moraria sozinho em um belo apartamento, hoje não vejo vantagem em comprar carros e estou longe de querer viver em sobreposições.

Lembro que era o máximo fumar, que ser descolado estava restrito ao que você vestia e não ao que você pensava.

Lembro das mulheres de calças com cós-alto hoje entendo o porque algumas mães tem o corpo mais bonitos que os das filhas.

Talvez meu primeiro sonho fosse ser jogador de futebol, mas precisavam de mim trabalhando.

Lembro da primeira paixão de escola, mas não do meu primeiro beijo, como disse fui muito precoce.

Lembro das enquetes de amigas. Lembro ser o melhor amigo da menina mais bonita da escola, pois não tinha coragem de ser namorado dela.

Me apaixonei por uma professora, por uma enfermeira, por uma menina que trabalhava no mercado, por uma filha de gente rica, por uma bem mais velha que eu, mas não tive coragem de me expor e me tornei o confidente de todas elas.

Passei a entender como elas pensam sobre algumas coisas e no fim compreendi que elas também zelaram pelas cores, que tinham uma boneca inseparável e também choravam. No fim passei a entendê-las muito e amar como as pessoas agem, mas ainda não me exponho.

Passava tanto tempo lendo que não suportava muitas vezes ouvir as pessoas, normalmente era só amolação.

A pouco tempo percebi que a falta de conversar com alguém faz os adultos chorarem algumas vezes e custo a entender o porque é tão complicado esquecer o passado.

Se sentir sozinho não é ficar num quarto ou num sitio sem ninguém por perto, percebi que a solidão está em seu pensamento e quando não se tem alguém para entendê-lo você chora.

Várias coisas que eu almejava quando criança ainda não se concretizaram e não digo dos bens materiais, falo do mundo.

Me ensinaram muito bem e percebi que o futuro é estarmos ao lado das pessoas que amamos e algumas vezes das que nos odeiam, mas sempre permanecermos próximos. Tecnologia, avanços, comodidade, nada disto é sonho, pois é previsível e alcançável.

Aprendi a dar valor aos pensamentos e sonhos das pessoas e não as coisas que julgam necessárias.

Hoje no exato momento que escrevo estou muito orgulhoso de uma pessoa, pois acima de todas as dificuldades e privações materiais ela está para realizar um sonho e Deus sabe o quanto é difícil.

Projeto há muito tempo meu sonhos e ainda não iniciei sua realização, mas sei que em breve poderei.

Ainda preciso me convencer de algumas culpas e tentar manter algumas pessoas somente em meu coração e entender que não posso vê-la novamente.

No fim tudo se resume a esquecer dos que já foram e dar importância para os que ficam.

Percebo agora que ainda sou criança e tento convencer-me que as cores não devem ser usadas demasiadamente, que seu melhor amigo é inanimado e me questionando o porque os adultos choram.

 

Preciso de redenção!

14/11/10

 

A vida é um sonho.

Algumas coisas infelizmente não são para sempre, bobos são os que desperdiçam alguns momentos felizes, mesmo aqueles pequenos e visivelmente desprezíveis do tipo que podemos pensar que amanhã ou em um outro dia poderá acontecer novamente. Somos bobos por não enxergarmos o óbvio, que sim, os menores e mais desprezíveis momentos de nossas vidas são aqueles que regem nossa felicidade.

 Fazemos papel de bobo, mentimos, nunca nos sentimos à altura daquele que amamos, seja um amigo, um parceiro, um parente ou simplesmente um pequeno momento.

 Sempre que tenho tempo para ler ou observar o mundo complexo ao qual pertenço consigo identificar o quanto sou desprezível, daí me recordo dos milimétricos quase imperceptíveis momentos aos quais covardemente desisti ou então não dei a devida atenção. Hoje sei que por toda vida sempre recordarei e sinto que no fim lembrarei que ela é feita dos momentos que não participamos, que a vida é um sonho não realizado.

 Conheci muitas pessoas das quais carregarei no peito por muito tempo ou o que o tempo me disponibilizar a recordar. Para algumas delas não fui a pessoa verdadeiramente que sou, mas tratando a vida como um sonho acho que não fiz por mal.

 Penso às vezes que quando morrermos não teremos a oportunidade de percebermos que definitivamente o sonho da vida acabou, acredito que não nos recordamos do fim.

 Sinto não ter vivido alguns momentos melhores e sinto muito mais não poder fazer algumas pessoas viverem o quanto eu queria que elas vivessem bem, Deus sabe que sou uma pessoa guardiã, que prezo muito mais pelos demais do que a mim mesmo, talvez seja por que estou cansado de ver muitos momentos felizes de minha vida esvair por entre meus dedos, acho que tenho colecionado o desprezo despercebido da felicidade.

 È uma luta constante entre o bem que eu faço e o mau que contraio a eu mesmo ao desprezar minha própria presença, constituir sorrisos nos rostos de desconhecidos e a cada gargalhada e uma lágrima ganho um momento perdido.

 Queria que todos fossem melhores consigo mesmos, que tomassem o devido carinho e cuidado para não perder os reflexos momentâneos que a vida oferece, assim eu participaria menos de suas vidas e quem sabe teria tempo suficiente para sorrir.

 Tenho pensado muito mais do que deveria. Eu não faço planos pois sei que antes de concluir alguém me chamará e não conseguirei salvar a mim mesmo e lá estarei novamente servindo de bons momentos para uma outra vida.

 Algumas coisas não são para sempre, bobos são aqueles que pensam igual à mim.

 Talvez todos tenhamos uma hora certa para despertar e ver que o que perdemos parecia apenas um sonho despercebido ou chegaremos ao fim da jornada apenas chorando ironicamente pensando que estamos sorrindo quando deveríamos estar dormindo.

 Alguns momentos eu quero carregar comigo, na maioria os piores, aqueles que me façam lembrar o quando eu poderia fazer alguém feliz, mas ai padeço tentando recordar quando foi a ultima vez que eu me vi sorrindo.

 Algumas coisas não são para sempre, mas se conseguirmos participar de um breve momento feliz na vida de outrem tenho certeza morrerei dormindo, pois a vida é só um sonho a procura de ser feliz.

 Enfim, não preciso ser feliz, é preciso apenas fazer alguém sorrir e após minha jornada esta pessoa poderá sonhar comigo e ela verá que eu fui feliz, talvez é ai que o fim é despercebido e cá estou eu a viver feliz!

17/Dez/09